Quando a minoria da minoria também oprimi
Vocês tão ligados que já falei do preconceito dentro da própria comunidade LGBTQIA+, de como não me sinto encaixado dentro dela. O tal do sentimento de não pertencimento. Mas a repetição, não generalizo, por quem faz parte dela, de ações opressoras/machistas/padronizadas contra o próprio seio, é ainda mais certeira pra perpetuação da maneira de como essa minoria, que faço parte, é tratada e estigmatizada. É como se quem teve o barco furado, também furasse o do colega que está navegando na mesma direção, sem que os dois se unam pra chegar a um lugar em comum, ou, acabar com opressor primário que tentou afundar a primeira navegação.
Estive em Belo Horizonte, Minas Gerais, por esses dias. E lá, existem pessoas do meio bem resolvidas e outras, nem tanto assim, acredito. Usei um aplicativo, que não preciso dizer qual, pra ver se encontrava um cara bacana pra algo casual. Achei. Ele teve a iniciativa, mas me enrolou três dias. Estávamos só a 80 metros hospedados um do outro, mas nunca queria encontrar. Pedia muitas fotos pra ver como eu era. Mandei algumas (não, não eram nudes). Mas parece que não foram suficientes. Recebi também e achei ok.
Até que ele decidiu que ia tomar uma breja comigo onde eu tava hospedado. Acertamos o horário, preparei o lugar pra um papo sem compromisso e esperei. Aí ele mandou uma mensagem pelo app perguntando minha rede social, pra mandar "algo por lá"; e como não morava em BH não vi problema em passar. Pouco tempo depois ele veio dizer que um amigo chegou na casa dele e não podia mais ir me ver. Mas continuou madrugada a dentro online no aplicativo.
Foi aí que me dei conta de que ele queria ter certeza que eu estava dentro de algum padrão, do que ele geralmente esperava de um homem/gay/bissexual.Queria ter certeza talvez de que tinha um perfil heteronormativo nas condições dele. Provavelmente não atingi a expectativa e caiu fora, usando aquela mentira típica.
O fato é que como o aceitei na rede social, pude observar mais um pouco dele, da aparência, do círculo de amigos, dos lugares que frequenta. Descobri que era cabeleireiro de mulheres, maquiador, tinha o cabelo platinado, o corpo estava levemente diferente das fotos que mandou no app (onde era meio torneado), e me pareceu ter traços afeminados. Ter essas características não tem nenhum problema. A gente sabe, no entanto, que ser dessa forma resulta em preconceito e muito de próprios membros da comunidade e dos héteros (sem generalizar) que rejeitam esse perfil, por causa da idolatria ao que é heteronormativo.
Então, só por ser quem é, o 'nosso amigo' já faz parte de uma minoria dentro da minoria LGTQIA+, que já é rejeitada pela sociedade de forma geral. Então, ao meu ver, dispensar alguém porque na visão de quem analisa, não atinge um determinado padrão, seja de beleza ou heteronormatividade, é perpetuar o tratamento ao qual ele mesmo é submetido; a alimentação de um ciclo sem fim.
Esse texto não é sobre rejeição, até porque não tive esse problema com outros caras com padrão heteronormativo por assim dizer, nem antes e nem depois. É uma sobre uma reflexão entre os próprios pares.
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