Quando o outro não tem medo de ser o que é

Falar sobre autoaceitação é complexo. Cada um tem uma realidade, as próprias experiências, os próprios medos e temores. Uma palavra errada, muitos pensam, pode ser uma bala, uma bala que mate talvez, o mundo de possibilidades que poderia ser decorrente  apenas do fato de nos entendermos com nós mesmos, quem somos. Só nós mesmos sabemos o que sentimentos. Ninguém mais.

Não há comparação entre vidas, não é o mais correto. Mas se pode olhar para o outro, aprender com o outro. Podemos nos inspirar no mesmo caminho, cujas experiências obviamente não serão as mesmas, mas mudarão muito a respeito do que pensávamos ou esperávamos, sobre o que tínhamos medo. Tudo que é vivido é válido, de uma forma ou de outra.

E pensando assim, me vem à mente agora, uma mulher trans que vira e mexe eu via na cidade que morava, de apenas 45 mil habitantes (e muito, muito conservadora e hipócrita também). Ela não era tão "polida", tinha muitos traços masculinos ainda, mas sempre estava usando roupas femininas, de salto e uma bolsa. 

Quando ela estava na rua, geralmente a pé,  tinham olhares de reprovação, risos de deboche, assovios de provocação. Mas ela nunca parava, nunca respondia e sempre ficava de cabeça erguida, andando sem olhar pra trás. Isso, isso que ela vivia todo dia não a fazia desistir de quem era ela. Toda vez que a via, estava lá, sempre vestida do mesmo jeito e com as mesmas atitudes. 

Sem dizer uma palavra, ela lutava pelo que era, se mostrava o que era. O que vinha do exterior não a fazia recuar. Pensei então, porque ela faria isso mesmo, recuar? Desistir de si mesmo? Foi ai que percebi que tudo que ela mostrava era carregado de simbolismo. Era o "eu" dela pro mundo, o 'não ter vergonha do que sou', o 'não abro mão de ser o que sou'.

Não estou dizendo que as pessoas devem sair por aí expondo a sexualidade, nada disso. Cabe cada um decidir o que quer pra vida e ninguém tem nada haver com isso. A questão aqui é: podemos aprender com outros, com esse olhar de querer entender e se identificar. Perceberam a coragem dessa mulher trans, numa cidade de 45 mil habitantes? Que tenhamos essa coragem, de ser quem somos e de lutar por nós mesmos.

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